
O cinema sempre teve relações muito afetivas com o Carnaval. Os primeiros registros em imagens em movimento datam de 1908, quando a folia era completamente diferente da atual. Mas foi preciso que acontecesse o cinema falado para que o filão viesse a tomar impulso, principalmente a partir dos anos 30, com a Cinédia, estúdio de Adhemar Gonzaga que ficava no Rio, em Jacarepaguá. O detonador do filão musical-carnavalesco pode ser considerado A voz do Carnaval, de 1933, dirigido por Gonzaga e Humberto Mauro, com Carmem Miranda, que estréia, aqui, no cinema. Dois anos depois, em 1935, uma trindade, Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro, realiza Alô, alô Brasil, que fez imenso sucesso nas bilheterias. Gonzaga, produtor e cineasta, que tinha um faro excepcional para intuir dos filmes que poderiam ser exitosos, resolve filmar, em 1936, Alô, alô Carnaval, que suplanta o anterior, porque, entre outras coisas, Carmem Miranda já é uma figura de proa no cenário artístico brasileiro. E mais: Francisco Alves, Lamartine Babo, Dircinha Baptista, além dos comediantes Oscarito e Jayme Costa.
Mas estes primeiros filmes musicais-carnavalescos são toscos enquanto realização cinematográfica. Há um fio de história como pretexto para o aparecimento dos números, sempre filmados com câmera fixa e em planos-sequências, sem nenhum movimento e sem uma construção espacial através da montagem. Esta funciona apenas como edição, como elo de ligação dos números e dos sketchs primários. Não possuem, os filmes inaugurais do filão, nenhum valor cinematográfico, mas um valor de documento, de resgate da memória, a considerar que vários talentos da música do pretérito se apresentam nestes filmes. Em Alô, alô, Carnaval, há um número histórico no qual se tem as duas irmãs, Carmem e Aurora, juntas a cantar, antes que a primeira explodisse na constelação hollywoodiana.
Para se compreender bem o fenômeno Carmem Miranda é preciso ler a sua biografia, talvez definitiva, escrita por Ruy Castro. Mas o público gosta dos filmes carnavalescos e muitos diretores se dedicam ao gênero. Já em 1938, dois filmes procuram misturar a chanchada aos números, a exemplo de Tererê não resolve, de Lulu de Barros, e Banana da terra, de Rui Costa, obras de grande mediocridade e que revelam um paroxismo, porque excelentes como documentações do Carnaval de antigamente, hoje destruído pelo som eletrônico, pela falta de harmonia, pela algazarra, pela industrialização de seu espaço.
O filme carnavalesco, desta época, que tem um valor cinematográfico, segundo os pesquisadores do cinema brasileiro, porque seus negativos são destruídos, é Favela dos meus amores (1935), de Humberto Mauro, porque é uma obra que procura registrar o comportamento de favelados (naquela época a favela era romântica) em função do Carnaval. Escrito por Henrique Pongetti, é um dos filmes nacionais unanimemente aclamados pela crítica como obra de arte autêntica. É drama de costumes típico de cidade brasileira mais evoluída, que tenta "respirar o Brasil". É morro, barracão de zinco, crioulos (ou seria melhor colocar afrodescendentes?), abismos físicos e sociais, e lirismo, muito lirismo.
Sílvio Caldas, camisa de malandro, violão no peito, canta sambas dolentes de Ary Barroso e apaixona-se por uma professorinha, Carmem Santos, a maior atriz brasileira da época, que, por sua vez, ama Rodolfo Mayer e os casacos de luxo, as jóias, o automóvel, o resplendor da cidade grã-fina. Armando Louzada, camisa listrada, lenço no pescoço, olha as luzes tremeluzentes da grande cidade, o Rio, lá em baixo. Mas Favela dos meus amores obra esquecida de Humberto Mauro, com o desaparecimento daqueles que a viram e a admiraram, fica apenas como uma referência na história de nosso cinema.
Para o desenvolvimento de uma estrutura audiovisual mais articulada, é preciso que se espere o fim da década de 40 e os anos 50, quando os filmes carnavalescos misturam a música e a comédia, um roteiro mais preciso e inventivo na configuração das ‘”gags”, das situações, como são exemplares, nesse sentido, Carnaval no fogo (1949) e Aviso aos navegantes (1950), ambos de Watson Macedo, diretor com aguçado sentido de espetáculo, que exerce muita influência entre os cineastas posteriores, a exemplo de Carlos Manga (o responsável por algumas das melhores comédias do cinema brasileiro em todos os tempos: O homem do sputnick [1958], e De vento em popa [1959]. Macedo é um pioneiro, um homem de cinema tout court cuja valorização apenas se dá muitas décadas depois de seu auge.
Outro filme importante do filão é Carnaval Atlântida (1952), de outro diretor muito bem preparado para o ofício: José Carlos Burle. Neste filme, hoje um clássico do cinema nacional, ainda que na época visto como mera chanchada, desprezada pelos críticos, compareciam no elenco: Grande Otelo, Oscarito, José Lewgoy, como vilão, e Cyl Farney e Anselmo Duarte como galãs. O argumento gira em torno da seguinte situação: Xenofontes (o imenso Oscarito), um sisudo professor de mitologia grega, é contratado por um produtor como consultor da adaptação do clássico Helena de Tróia para o cinema. Mas dois empregados do estúdio sonham em transformar o épico grego numa comédia carnavalesca. Carlos Manga é o diretor dos números musicais. No rastro deste filme estão: Carnaval em Caxias (1953), Carnaval em Lá Maior (1954), Carnaval em Marte (1955), mas apenas pálidos reflexos de Carnaval Atlântida.
Em 1959, o francês Marcel Camus, a tomar como base a peça de Vinicius De Morais, Orfeu Negro, que faz sucesso no Teatro Municipal, com cenografia de Oscar Niemeyer e música do maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, realiza Orfeu do Carnaval, bastante premiado em festivais internacionais, embora um "filme estrangeiro" que, simplesmente, aproveita a paisagem maravilhosa do Rio de Janeiro, o seu décor exuberante, como pano de fundo da tragédia anunciada. Em 1999, decorridos 40 anos, Carlos Diegues, em ritmo de escola de samba, constrói o seu Orfeu, mas prejudicado por um elenco primário e pouco cinematográfico, com Tony Garrido (um Orfeu desgarrado) e Patrícia França.
Não se pode deixar de citar, em se falando de filmes carnavalescos, Amor, carnaval e sonhos (1971), de Paulo César Saraceni, com Leila Diniz, Arduíno Colasanti, Ana Maria Miranda, entre outros, homenagem ao Carnaval da Cidade Maravilhosa, ainda que um tanto "desconjuntado" a revelar defeitos na sua estrutura. Mas vale, assim como tantos citados, como documento precioso de uma época. Outro filme, A lira do delírio, de Walter Lima Junior, obra cultuada, registra, entre outras coisas, o último baile carnavalesco do Teatro Municipal. E, ainda, em 1972, Quando o Carnaval chegar, de Carlos Diegues, com Nara Leão, Chico Buarque, Hugo Carvana. E acho que também Maria Bethânia.