Figurativo realista de Lucian Freud

Lucian Freud. (Foto divulgação)

Lucian Michael Freud (LF) (1922-2011), neto de Sigmund Freud, foi para Inglaterra, juntamente com a sua família, em 1931, tornando-se cidadão inglês em 1939. Mostrou enorme tendência ao desenho desde muito jovem. Desenhava e pintava com dedicação e grande intensidade, construindo sua trajetória pautada nas pessoas de convívio diário. Em 1951, o seu quadro Interior at Paddington (Walker Art Gallery, Liverpool) ganhou o primeiro prêmio no festival de Arte Britânica e, desde então, ganhou uma reputação enorme como um dos principais pintores de arte figurativa contemporânea.
Foi considerado o maior pintor vivo no século XX. Os seus nus criaram polêmica, alimentaram muita admiração e ódio. De técnica ímpar, ninguém pintou a espécie humana na sua nudez como ele o fez. Carne e sangue, belos e feios, gordos e magros, velhos e jovens. Posições inusitadas, corpos distorcidos, sentados, recostados ou com um animal ao lado. Sós, implacavelmente sós ou adormecidos um ao lado do outro. LF pintava além do visível, conseguindo registrar nos seus trabalhos traços da personalidade das pessoas que posavam para ele. Era um realista e pintava retratos de quem significava alguma coisa para ele, quem conhecia e gostava. Os amigos e família posavam para ele por longos períodos, durante um ano inteiro, vários dias por semana.
Jackie Wullschlager, crítico de arte do "Financial Times”, costumava denominar LF como "o intérprete da carne e da psique humana na pintura". Foi só no final dos anos 50, quando mudou sua atitude perante o suporte pictórico passando a trabalhar em pé, que começou a retratar o corpo de uma forma mais intensa e voluptuosa. A adoção de uma atitude mais visceral foi libertadora na sua obra, determinando um efeito definitivo sobre as pinceladas e as texturas. Substituindo os pincéis de zibelina pelos de pêlo de porco, piores e precisos, LF começou a esculpir com a tinta, ampliando a observação meticulosa a novos horizontes.
A sua rotina de trabalho incluía três sessões principais por dia, muitas vezes à noite e, em função disto, impôs-se uma dieta muito rigorosa. Ele tinha plena consciência da sua própria mortalidade e sabia que o tempo era muito precioso. As horas intermináveis que os modelos passavam posando para Freud resultavam nas mais diversas reações, mostrando fadiga e torpor, como que abandonados à sua sorte. E nenhum desses pormenores escapava ao artista. LF costumava olhar durante muito tempo, aproximava-se e espreitava, para arrebatar todas as rugas, traços e características físicas, pois ele queria que a tinta funcionasse como carne, que os seus retratos fossem as pessoas e não parecidos a elas. Movimentava-se o tempo todo enquanto trabalhava e os seus movimentos com os pincéis e as tintas não resultavam em mera pintura. Poucos compreendiam a alma das tintas e das telas, da carne, dos tendões e dos nervos como LF o fazia. 
Lucian Freud, autoretrato. (Foto:Divulgação) 
Sua paixão pela pintura era tamanha que nos últimos cinco anos Freud, além de pintar intensamente, esteve envolvido na preparação de duas mostras distintas sobre sua produção visual. Um trabalho de gigante e tão intenso que seis meses após a sua morte, as exposições abrem com intervalo de oito dias entre elas:
- Lucian Freud/Drawings, de curadoria de William Feaver, na Blain/Southern Gallery (21 Dering Street Oxford Street W1S 1AL,  London), onde serão apresentados seus desenhos e esboços, mais de uma centena, que vão desde os tempos primevos quando sinalizava ao mundo seu talento, até os estudos em técnicas aquosas, que precederam seus grandes trabalhos pictóricos. As obras abrangem representações da sua vída íntima, incluindo retratos de sua mãe e seu pai, seus filhos e amigos próximos - entre eles o pintor Francis Bacon - a paisagens e estudos de animais. São mostradas diversas técnicas utilizadas pelo artista ao longo da sua carreira. Gravuras, aquarelas, guaches e trabalhos feitos em giz, carvão, pastel, lápis conté, caneta e tinta deverão ser intercalados e inter-relacionados com pinturas a óleo. A inauguração será no dia 17/02/2012 com duração até 05/04/2012.
- Lucian Freud/Portraits, de curadoria de Sarah Howgate, na National Portraits Gallery (St Martin's Place WC2H 0HE, London), serão apresentados trabalhos pictóricos organizando-se e concentrando-se em períodos específicos e grupos de assistentes para mostrar evolução estilística de Freud e o virtuosismo técnico. A exposição incluirá os retratos icônicos e raramente vistos de amantes do artista, amigos e familiares. Descrito pelo artista como "pessoas em minha vida”, estes retratos foram selecionados para demonstrar o drama psicológico e a intensidade de observação em seu trabalho. Exibidos cronologicamente por todo o piso térreo da galeria, a exposição incluirá nove seções incluindo os primeiros retratos até à obra final. Presente na mostra retratos de grandes musas, como Bowery, sua mãe, e da sua família, a exposição também vai destacar a importância recorrente do auto-retrato na obra de Freud. A inauguração será no dia 09/02/2012 com duração até 27/05/2012.
Benefits Supervisor Sleeping a Life Size, de Lucian Freud. (Foto: Divulgação)
Lucian Freud possui muita carga, muita energia e é muito perturbador observá-la. É causadora de um grande estranhamento e incômodo, conferindo-lhe poder e fascínio. É um trabalho pessoal, auto-biográfico e esta característica é patente na sua obra. Da mesma forma, por ser muito desapegado e crítico, o torna tão intenso.

 


 

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