Teatro e Política

Bertolt Brecht. (Foto:Divulgação)

“Eu vivo em tempos sombrios. (...)

 

Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,

 

uma testa sem rugas é sinal de indiferença. (...)”

 

Bertolt Brecht

  

Diante de tantos fatos ocorridos no atual cenário da realidade brasileira, tais como a desocupação violenta e arbitrária da comunidade Pinheirinho em São Paulo e a greve abusiva da Polícia Militar de Salvador, eu não poderia deixar de falar em política, entretanto, a aproximarei do mundo teatral. Ainda que o assunto seja extenso e que o espaço da escrita seja pequeno, tentarei sintetizar a matéria.

Em 2006, quando estive em Berlim, Alemanha, abrandei a minha curiosidade histórica conhecendo o emblemático “Berliner Ensemble”, companhia de teatro fundada em 1949 pelo poeta, dramaturgo e diretor teatral alemão Bertolt Brecht (1898 -1956) e sua mulher, a atriz Helene Weigel (1900-1971).

Para quem não conhece, Brecht foi um artista altamente engajado, politizado e comprometido com o social. Autor de peças como “Mãe Coragem”, na qual ele denuncia as angústias de uma mãe que lucrava com a guerra e que, por isso, acabou perdendo todos os filhos e ficando na miséria, e “A ópera dos três vinténs”, peça que inspirou Chico Buarque com o seu “A ópera do malandro” e que retrata as aventuras de Mac Navalha, o qual lucra com a exploração de assaltos e da prostituição, Brecht soube como ninguém fotografar a realidade alemã de sua época. Não só como dramaturgo, mas também como encenador, incorporando à cena elementos épicos (intervenções cênicas que seccionam a história contada - sejam através da música, de cartazes ou até mesmo da fala direta do ator ao espectador). A sua intenção objetivava “acordar” o espectador, tirá-lo da passividade e da ilusão, lembrá-lo que estava dentro de um teatro, atentá-lo para a reflexão e adverti-lo que a mudança da realidade só dependia de suas ações.

Como eu estava ansiosa para encontrar uma companhia teatral altamente engajada - como o foi seu fundador - fui assistir a três espetáculos no teatro de Brecht. No entanto, deparei-me com uma estrutura de teatro burguês que vive da memória de um dos maiores homens de teatro do século XX. Um teatro para “turistas”. Um teatro que tem uma arquitetura linda, na qual só reflete a arte engajada de um tempo passado. Um tempo de uma história de guerra combatida com as “armas” pacíficas, e não menos ostensivas, da arte. Uma arte sem “panfletarismo”, sem levantar a bandeira de uma doutrina e revolucionária por ela mesma. Assim sendo, presume-se que toda obra artística seja política e que o teatro já é político em sua natureza. Brecht fez história. Hoje história é algo do passado.

Parece-me que essa realidade específica que vivenciei no “Berliner Ensemble” não está longe do que vivemos aqui em Salvador. Os nossos artistas aparentam não ter mais “paixão” e o ímpeto romântico de “vamos mudar o mundo” através do teatro e fazer história. Muitos dirão que o sonhou acabou. Que os tempos são outros. Que temos que pensar o nosso fazer teatral como um “negócio cultural”. Que temos que nos adaptar às novas tecnologias antes mesmo de sabermos humanos. Que temos de dialogar com o mercado (mercado?). E muitas outras exigências e mudanças de valores. 

Atualmente percebo, e isso é apenas uma percepção, que o que interessa a muitos artistas é saber se o “seu” projeto passou ou não em um edital, se tem ou não orçamento para fazer o espetáculo, se a mídia gostou ou não do “seu” trabalho, se o artista famoso está na plateia para vê-lo e tirar foto com ele nos bastidores, etc. Nesse caso, os valores do fazer teatral e da obra artística são transferidos para “o meu projeto foi aprovado”, ou melhor, “eu quero ser amado”. Enfim. Será que hoje esses artistas foram anestesiados pela lógica capitalista da lei da oferta e da procura? Engolidos por uma sociedade do espetáculo, na qual o mérito é ter o maior número de curtições numa página virtual? Será?

 

  • Ítalo Mazoni

    Postado em 2012-02-13 01:27:22

    E por incrível que pareça o povo começa a ir as ruas... em Wall Street, em Salvador... Só o teatro é que ainda não percebeu que arte não tem preço... tem valor!

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